domingo, janeiro 07, 2007

O uso da boneca na criança pré-escolar hospitalizada ...


Este post já o tinha prometido quando falei da boneca.
Na realidade, o uso da boneca na criança pré-escolar como terapia quando necessário é cada vez mais frequente, tendo em atenção as características psico-sociais desta faixa etária.
A criança pré-escolar é muito sensível ao carinho, assim como à injustiça ou ao castigo.
As palavras ofensivas tendem a ferir os seus sentimentos.
Gosta de elogios e de aprovação; é capaz de chorar ou rir com facilidade; é dominadora e autoritária, embora boa companheira, podendo criar vínculos afectivos e preocupar-se com o outro.

Habitualmente o pré-escolar é mais ligado afectivamente com as pessoas mais próximas (geralmente com os pais e os irmãos) e mostra-se solidário, expondo os seus sentimentos, colocando-se no lugar da pessoa de quem gosta, ou seja, actua de maneira empática.
Por outro lado, a criança pré-escolar quando não é o alvo das atenções sente ciúme. O egocentrismo é tão marcante, na maioria das vezes, que se manifestará em todas as áreas de actuação da criança (intelectual, social e de linguagem).
A criança nesta idade vive pois na fantasia, transporta com bastante facilidade, os seus mais variados sentimentos para os personagens dos contos, sendo que tais sentimentos podem ir aumentando, por intermédio da repetição da mesma história. Ela envolve-se com o conto, apropriando-se da personagem.
Ao escutar uma história, a criança passa de ouvinte passivo a participante activo dos acontecimentos.

Quando prevê o surgimento de uma passagem com factos mais negativos pode pedir para que seja encerrado o livro ou inventa algo mais aceitável e, muitas vezes, tenta intervir nos acontecimentos.

O medo ocupa assim um lugar especial entre os sentimentos desta criança.
Pode ser resultante de uma educação rígida ou não e/ou de um comportamento irracional do adulto, o que provoca pânico e angústia na criança.
O adulto pode transformar um simples facto em algo traumático para a criança ou ainda, transmitir-lhe o seu medo Como exemplo disso, podemos citar a figura da própria mãe que, por medo de um animal, acaba transmitindo para o seu filho o mesmo sentimento.

O medo surge, algumas vezes, sem a influência directa do adulto.
A criança, ao deparar-se com algo desconhecido, pode experimentar assombro, curiosidade e/ou medo como no caso de um internamento ou hospitalização.

Em grande parte nos serviços de Cirurgia Pediátrica é usual a utilização de bonecas para ajudar a superar o medo da criança em idade pré-escolar acerca de tratamentos pré-cirúrgicos, da própria cirurgia ou pós-cirúrgicos que elas possam ter ou vir a ter, embora posteriormente, tendo como finalidade facilitar a realização de todos os procedimentos clínicos que a criança irá eventualmente sofrer.


Habitualmente são as(os) enfermeiras(os) pediátricos que explicam às crianças, através de uma boneca comum (chamada de boneca terapêutica), quais os tratamentos que estas irão efectuar, elucidando onde e como e pedem às crianças para realizarem na boneca aquilo que lhes foi ensinado.
Neste sentido a boneca utilizada sofre pequenas intervenções, com a ajuda das enfermeiras, visando a possibilidade da colocação de cateteres, sondas, drenos, sacos de colheita de urina ou outros exames, ou seja, as crianças manuseiam a boneca e transferem para a mesma, em parte, os seus medos.


Com estes procedimentos, as crianças, ou seja, os pequenos doentinhos perdem o medo dos tratamentos e não resistem tanto aos mesmos, ficando mais confiantes naquilo que os espera.

Estes procedimentos já se realizam em Portugal há alguns anos.
A boneca passou a ser utilizada no hospital para acalmar não só as crianças, mas também os seus pais.
A boneca, que pode ser substituída por boneco de peluche, tanto pode ser propriedade do hospital como da própria criança, ficando ao critério da mesma.




Uma enfermeira (Enf.ª Nídia) que trabalha num serviço de Cirurgia Pediátrica de um Hospital Pediátrico diz-nos: "Muitas vezes a criança chega ao hospital é internada no serviço e vai ser imediatamente submetida, por exemplo, à perfusão de soro, que pode ser visto e sentido por ela como um procedimento agressivo.

A família, por sua vez, também se pode assustar e a boneca vai, em tom de brincadeira, fazer o papel de mediador, e ser submetida a esse mesmo procedimento".

A boneca faz com que as crianças internadas e os seus familiares (habitualmente os pais) conheçam melhor o ambiente hospitalar que, era até àquela data, um mundo desconhecido para eles.

"Na unidade de Cirurgia Pediátrica a utilização da boneca é pois mais intensiva porque a cirurgia causa medo, espanto, apreensão ao utente pediátrico (crianças e pais).
Com a utilização da boneca existe toda uma relação de confiança e segurança que se vai adquirindo pois são transmitidas as informações necessárias em tom de brincadeira!”, acrescenta a Enf.ª Nídia.

A boneca terapêutica representa um momento de humanização e acolhimento em todo o processo de tratamento e recuperação da criança, além de contribuir para melhorar a interacção entre doente, pais e pessoal de enfermagem.
"Isso é muito importante na recuperação da criança e no seu comportamento
durante o acto cirúrgico, por exemplo”, refere ainda a Enf.ª Nídia.

Não contando com os casos, que não são tão poucos como se pensa, em que a criança tem alta e sai do hospital com uma sonda colocada ou um cateter também colocado e nesse momento os pais têm que saber como manipulá-los .
Habitualmente os pais aceitam um treinamento efectuado por meio da boneca e assim participam activamente nos cuidados a prestar aos seus filhos com a ajuda dos enfermeiros pediátricos.

Uma das psicológas que trabalha numa unidade oncológica , Elizabeth Barros, refere que o uso da boneca terapêutica é fundamental para o tratamento das crianças internadas no hospital. "Esse manuseio proporciona à criança a possibilidade de lidar com os seus medos, com a fantasia do desconhecido e isso traz efeitos bastante positivos porque a criança aceita melhor os tratamentos, que são bastante invasivos e deixam a criança assustada".
Segundo Elizabeth Barros, a criança ao brincar resgata tudo aquilo que faz parte de seu mundo, já que a doença, o seu tratamento e os efeitos colaterais não fazem parte desse mundo. "O que faz parte do mundo da criança é o lúdico, o brincar, o saudável da vida, então o brincar dentro do hospital proporciona um conforto físico e a melhoria da qualidade de vida da criança".



Brincar é pois a actividade mais importante da vida de uma criança e é crucial para o seu desenvolvimento motor, afectivo, mental e social.
É a forma pela qual ela se comunica com o meio ambiente em que vive e expressa activamente os seus sentimentos, ansiedades e frustrações.
Por meio do brinquedo, num evento em que é sujeito passivo, a criança transforma-se num investigador e controlador activo, e adquire o domínio da situação utilizando a brincadeira e a fantasia.


Bibliografia:

Artigo de Flávia Albuquerque (Agência Brasil)-2003

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692001000200011
– Protocolo de Preparação da criança pré-escolar para função venosa, através da utilização de um brinquedo terapêutico

Whaley & Wong - Enfermagem Pediátrica- Elementos essenciais à Intervenção Efectiva-2004
Hockenberry &Wong - Fundamentos da Enfermagem Pediátrica - 2006

31 Comments:

At 8:54 da manhã, Anonymous joana santos said...

Excelente post!Efectivamente a boneca ou boneco ou outro brinquedo podem ajudar a criança e os seus pais a superarem o medo da hospitalização e dos procedimentos invasivos. Infelizmente hoje em dia esses procedimentos têm tendência a não serem realizados na sua íntegra pela falta de enfermeiros que existe num serviço e pela lógica vigente em muitas instituições do que é mais importante são as técnicas em si e não a criança vista como um todo!
De qualquer maneira vai-se fazendo o que se pode pelos nossos doentinhos...Um bjinho grande para ti!

 
At 2:52 da tarde, Blogger SaraA said...

Gostei muito deste teu post! Não sabia dessa utilização da boneca, mas parece mesmo útil! Beijinhos

 
At 6:03 da tarde, Anonymous kaska said...

Parabéns pelo post, gostei imenso e não sabia deste método é sempre bom sabermos novas estratégias para ajudar as crianças, até na nossa casa podemos usar uma boneca para tranquilizar os nossos filhos quando estes estão doentes e têm medo de tomar os medicamentos. Numa criança tudo é dificil quando se trata da saúde.

 
At 8:24 da tarde, Anonymous Paulo Mestre said...

Não sabia do uso de brinquedos, neste caso de bonecas, para que a criança supere o medo dos tratamentos que faz quando está no hospital!É sem dúvida uma boa solução que os enfermeiros que trabalham na Pediatria encontraram e muito bem!
Mais uma vez um excelente post!
Um bjinho.

 
At 1:06 da manhã, Blogger Um Poema said...

"Aprender até morrer!" diz o provérbio. E, como com todos os provérbios, assim é.
É bom saber da preocupação que hoje está tão presente no pessoal hospitalar. Quantos traumas, nascidos nos hospitais de outro tempo, não deixaram marcas nas vidas das crianças de então.
Amiga, obrigado pela lição.
Um abraço

 
At 1:29 da tarde, Blogger brisa de palavras said...

Como mãe educadora..li este artigo com atenção...Há três anos o meu filho mais velho foi operado e foi o seu " fofinho" que o acompanhou até à sala de operações...
Um abraço
Brisa de palavras

 
At 8:49 da tarde, Anonymous sofia mendes said...

Gostei do post que revela o trabalho dos enfermeiros que "cuidam" das crianças e dos seus familiares num serviço de pediatria e através do qual as crianças, embora doentinhas, e pais estão certamente gratas!

 
At 9:11 da manhã, Blogger rouxinol de Bernardim said...

Isto é um autêntico "tratado" que devia ser lido por toda a gente!
Urbi et orbi!!!

 
At 7:18 da tarde, Anonymous rosário coelho said...

Cada vez que passo por aqui fico maravilhada! Mais um excelente post!Parabéns pelo mesmo e prometo que passarei por aqui mais vezes!Um beijinho à autora deste blog!

 
At 9:14 da tarde, Anonymous rita saavedra said...

Gostei muito deste cantinho. Trabalho num centro de saúde e aí trabalhamos muito na educação para a saúde. Este post vem ajudar-nos num trabalho que já tinhamos iniciado.
Obrigado por partilhares as tuas vivências!Uma beijoca!!!

 
At 9:19 da tarde, Anonymous rui carvalheira said...

A terapia usada com bonecas também é usada em casos de crianças que sofrem abusos sexuais, pois as crianças denunciam, muitas vezes, envergonhadamente, com a sua ajuda aquilo que lhes aconteceu.
Obrigado por te dares a conhecer, jokas.

 
At 11:13 da manhã, Anonymous Pedro Branco said...

Eu, que sou professor do 1º Ciclo, percebo muito bem este texto, muito embora pense que o assunto vai muito mais para além do que se disse. Mas isso é a limitação da escrita... Fascinam-me as relações e quando é com as crianças muito mais. Não me considero um adulto normal. Nem quero ser. Por mim usaria toda a minha arte ao serviço de uma vida mais bonita e isso só com crianças felizes. Venham elas de onde vierem.

Beijo.

 
At 12:52 da tarde, Anonymous Daniel Monturo said...

Encontrei este blog por acaso. Gostei muito das páginas que vi. Todos os temas tratados, sempre de forma educativa (é professora,não é?) têm para mim uma importância relevante.
O CRIANCICES está de parabéns!!!!!

 
At 4:58 da tarde, Anonymous Enfermagem Portuguesa said...

Parabéns pelo seu Blog e pelo seu "post". De facto consideramos que quando as matérias se debatem com rigor e seriedade acabamos por obter resultados como este. Até breve.

 
At 6:28 da tarde, Blogger DREAMASTER said...

Olá menina. Um bom 2007 tb pra ti.

A brincadeira não acaba com o fim da infancia. Não é bom brincar ?!


Bjs
D.

 
At 8:18 da tarde, Anonymous Miguel Navarro said...

Foi uma colega que me falou do CRIANCICES e passei por aqui para confirmar o que ela me tinha dito: que era um blog de enfermagem direccionado não só para enfermeiros mas para o público em geral com o sentido de uma visualização maior da nossa profissão.....e penso que este blog o está a conseguir!Parabéns à autora, um beijinho do Miguel

 
At 8:38 da tarde, Anonymous Graça Morais said...

Este post acerca do uso da boneca para superar o medo é interessante!
De qualquer medo acho que como enfermeiros nunca deveriamos descurar o aspecto informativo na criança antes de se fazer qualquer procedimento por pouco doloroso que seja, pois para ela o medo do desconhecido vai sobrepor-se a tudo o que ela vai viver quando hospitalizada.JOKAS da Graça.

 
At 10:54 da tarde, Blogger António said...

Olá, Rosa!
Li atentamente mais este teu texto de caracter pedagógico e que só podia ser feito por uma profissional.
Gostei do que li e dou-te os meus parabéns!
Acho que deves ser uma excelente enfermeira.
Escreveste:
"(a criança pré-escolar) gosta de elogios e de aprovação".
Mas isso também eu!
ah ah ah

Obrigado pelo comentário à minha história do Jaquim da GNR.

Beijinhos

 
At 10:59 da tarde, Blogger Kalinka said...

SABIA QUE...?

Iniciou-se a contagem decrescente para o lançamento do livro
«Que é o Amor?».
Colaborei com um texto da minha autoria, dedicado a todos que de alguma forma marcaram a minha Vida em momentos inesquecíveis, mas também a alguém muito especial que nasceu dia 7 de Fevereiro e que, por não pertencer ao Mundo dos vivos, guardo com muito Amor, na minha memória (minha Mãe).

É uma excelente oferta em qualquer altura, mas como se aproxima o Dia dos Namorados, será bom começarem a preparar as vossas encomendas quanto antes.
Beijos e abraços.

Está convidada a espreitar!!!

 
At 11:02 da tarde, Blogger Kalinka said...

Aproveito a minha vinda cá para lhe dizer o quanto é importante o seu blog, pois durante toda a nossa vida estamos quase sempre ligados a crianças, sejam os filhos, os sobrinhos, os netos.
No meu caso estou com 2 netos, uma de 4 anos e 3 meses e outro de apenas 4 meses e alguns dias; e, a chegada do mano para a mais velha pode ser um pouco embaraçoso...
Todos os conselhos que aqui deixa são muito importantes, da minha parte agradeço e prometo voltar sempre cá. Beijos.

 
At 12:19 da manhã, Blogger Grilinha said...

Que artigo delicioso e extraordináriamente importante. Obrigado por nos dares a conhecer. Continua.
Um beijo

 
At 11:12 da manhã, Anonymous sérgio ferreira said...

Já passei por aqui várias vezes mas nunca postei. Na minha opinião o Criancices é um cantinho virtual onde se debatem temas com conteúdo rigorosamente educativo. A autora está de parabéns!

 
At 11:33 da manhã, Anonymous Maria Cristina, Espanã said...

La actividade desarrollada por este blog orientada a profesionales e no profesionales que tengan al cuidado ninõs y adolescentes es mui rica con el sentido de ser un espacio, una página de la sociedade blogosférica que pretende acercar las diversas necesidades que van surgindo de la práctica profesional que és la enfermeria. Saludos mui grandes de un enfermera desde Espanã. Un besito!

 
At 12:18 da manhã, Blogger david santos said...

Olá!
Ó Rosa Silvestre, obrigado pelo amor que denota ter pelas crianças.
Abraços vheios de ternura.
Parabéns.

 
At 2:19 da tarde, Blogger António said...

Olá, Rosa!
Hoje faço uma visita de médico, como se costuma dizer na minha terra, para agradecer o teu comentário ao meu post das meninas à boleia.
E podes estar descansada que hoje não mato ninguém...ah ah ah.

Beijinhos

 
At 8:03 da manhã, Blogger blugaridades said...

E de criancices falando, dos meninos(as)vais tratando. Um post que tem tanto de pedagógico/didáctico quanto de carinhoso.
Um beijinho grande

 
At 2:57 da tarde, Blogger brisa de palavras said...

Passei para agradecer...a visita e deixar um abraço
brisa de palavras

 
At 8:36 da tarde, Blogger Carol said...

agradeço seu comentário... agora já tenho materias novas, passe por lá!http://pergunteparaaenfermeira.blogspot.com/

 
At 10:39 da manhã, Anonymous Mark Osborn said...

I likedi it. Hasta la vista baby, Mark(U.S.)

 
At 2:16 da tarde, Blogger Conceição Bernardino said...

A alegria é um dom que se adquire a arte a tristeza que se transpira
em beleza...
Eu volto
Beijinhos
Belo
Conceição Bernardino

Meus blogs http://amanhecer-poesia.blogspot.com

http://sentidos-visuais.blogspot.com

 
At 5:49 da tarde, Anonymous mariana said...

Belas páginas! Adorei, minha gente!

 

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